Numa fábrica, desperdício é fácil de enxergar: é a peça com defeito na caçamba, a pilha de material parado no estoque. Num escritório, numa clínica ou numa loja, o desperdício não cai no chão. Ele se esconde em caixas de e-mail, em planilhas paralelas e na agenda lotada do dono. Por isso ele dura anos sem ser notado.

Quem primeiro organizou esse assunto foi Taiichi Ohno, o engenheiro da Toyota que criou o sistema de produção da empresa. A definição dele é simples e vale para qualquer negócio: desperdício é tudo aquilo que consome tempo ou dinheiro sem agregar valor para o cliente. Ohno listou sete tipos. Com o tempo, a prática acrescentou um oitavo. E autores como Tapping e Shuker mostraram que a lista funciona perfeitamente fora da fábrica, no que se chama hoje de Lean Office.

Os oito desperdícios

Vale conhecer os oito, porque depois que você aprende a lista, começa a vê-los em todo lugar.

01
TransporteInformação andando à toa: o documento que passa por cinco aprovações quando duas bastavam.
02
EstoqueTrabalho parado: propostas esperando revisão, e-mails sem resposta, pedidos abertos no sistema.
03
MovimentaçãoGente se mexendo à toa: procurar arquivo em pasta bagunçada, pular entre seis sistemas.
04
EsperaO campeão dos serviços: processos parados aguardando aprovação, retorno ou decisão do dono.
05
SuperproduçãoProduzir além do necessário: o relatório que ninguém lê, a reunião que cabia numa mensagem.
06
Excesso de caprichoConferir três vezes o que precisava de uma; caprichar num documento interno como se fosse externo.
07
Defeitos e retrabalhoA nota emitida errada, o cadastro duplicado. Cada erro custa dobrado: alguém fez e alguém refez.
08
Talento subutilizadoGente boa em tarefa que não precisa dela. No limite, o gestor preso apagando incêndio.

Os oito, de perto

O primeiro é o transporte: na fábrica, é material andando à toa; no escritório, é informação andando à toa. O documento que passa por cinco aprovações quando duas bastavam, o e-mail encaminhado em cadeia até alguém decidir. O segundo é o estoque, que no escritório é trabalho parado: propostas esperando revisão, e-mails sem resposta, pedidos abertos no sistema. O terceiro é a movimentação das pessoas: procurar arquivo em pasta bagunçada, pular entre seis sistemas para fechar uma tarefa, atravessar a empresa atrás de uma assinatura.

O quarto é o campeão do setor de serviços: a espera. Processos parados aguardando aprovação, retorno do cliente ou, muito frequentemente, uma decisão do dono. Se você medir quanto tempo um pedido leva do início ao fim e quanto desse tempo alguém de fato trabalhou nele, o resultado costuma assustar: a maior parte é fila.

O quinto é a superprodução: produzir antes da hora ou mais do que o necessário. O relatório mensal que ninguém lê, a reunião que podia ser uma mensagem. Ohno dizia que esse é o pior de todos, porque ele fabrica os outros sete. O sexto é o excesso de capricho (superprocessamento): conferir três vezes o que precisava de uma, formatar um documento interno como se fosse para um cliente. O sétimo são os defeitos e o retrabalho: a nota fiscal emitida errada, o cadastro duplicado. Cada erro custa dobrado, porque alguém fez e alguém refez.

O oitavo desperdício é o mais caro numa empresa pequena: gente boa fazendo trabalho que não precisa dela. A pessoa qualificada gastando a tarde digitando dados que um sistema copiaria sozinho. E o caso extremo: o gestor preso na operação, apagando incêndio, sem tempo para a única coisa que ninguém pode fazer por ele: decidir o rumo do negócio.

Por onde começar

O antídoto não começa com treinamento nem com ferramenta. Começa tornando o fluxo visível: escolher um processo importante, desenhá-lo do início ao fim e marcar onde estão as esperas, os retrabalhos e as idas e vindas. Uma empresa que faz isso com um único processo crítico e ataca os dois ou três desperdícios maiores costuma colher, em semanas, resultados que anos de "vamos nos organizar" nunca entregaram.

Para se aprofundar: OHNO, T. Toyota Production System (1988) · WOMACK, J.; JONES, D. Lean Thinking (1996) · TAPPING, D.; SHUKER, T. Value Stream Management for the Lean Office (2003).